Estava eu agorinha mesmo comendo uma esfiha de queijo com presunto e tomando um mate quando presenciei uma cena inusitada. Um mendigo que usava muletas – era perneta – pedia uns trocados para uma senhora no meio da rua. A mulher retirou umas moedas do bolso e entregou ao mendigo que… caiu. Sim, o mendigo perneta tentou pegar as moedas com a mão que segurava a muleta, largou-a e, obviamente, se estatelou no chão, tentando ainda, em vão, segurar-se na senhora.
Fui acometido por um turbilhão de pensamentos nesse momento: “deveria eu ter pedido uma esfiha de queijo?”; “as pessoas gordas deveriam ser proibidas de comer em público, principalmente comidas cremosas, salvo após fazerem um curso de civilidade e boas maneiras?”; “sair na rua vestindo moletom largo ‘estilo pijama’ e chinelo sobre meias pretas implica em desistência de qualquer possibilidade de vida social?”; “poderia o mendigo perneta ser um representante do Brasil nas olimpíadas de Pequim, desde que munido de um pula-pula?”… No entanto, resolvi escrever este texto por conta de uma última questão que me veio à mente: mendigos deveriam ser nômades ou sedentários?
Explico: aqui em uma das ruas principais do bairro onde moro existem dois mendigos praticamente fixos, mascotes da região: o Mendigo Escritor (uma espécie de intelectual do analfabetismo) e o Mendigo Devagar (que executa seus movimentos com a agilidade de uma tartaruga reumática e que usa chinelo num pé e tênis da Nike em outro por puro senso estético, pois possui os dois pares de ambos os calçados). Tal o carinho que nutro por estes nobres indigentes, sempre que vejo um mendigo na rua lembro logo da condição de sedentarismo pela qual optaram os ilustres mascotes da mendicância local.
A questão toda é a seguinte: o que seria mais rentável para um mendigo? Por um lado, ficar em uma região fixa – tipo uma rua ou esquina – traz vantagens como o conhecimento da dinâmica local, possivelmente alguns provedores constantes de comida e dinheiro e um certo domínio do território, do tipo “essa marquise é minha e ninguém tasca!”. Por outro lado, há um sentido mínimo em ajudar um indigente: “vou contribuir para que esse sujeito bastante sujo e malcheiroso possa ter um mínimo de condições de sobrevivência, e quem sabe poder assim arranjar alguma coisa para fazer”. Um mendigo que se estabeleça em um território fixo, no entanto, passa uma mensagem bastante ruim para seus colaboradores, mais ou menos a seguinte: sim, sou um bon vivant da miséria, vou ficar aqui recebendo esmolas e sobras de comida estragada pelo resto dos meus dias, mas não movo um centímetro na busca de um emprego ou de um “servicinho”.
Já o mendigo migrante tem um núcleo diferente de questões: há vantagens claras, como a possibilidade de inventar, a cada novo território, uma diferente história para a situação deplorável em que se encontra. Fazendo isso, o mendigo pode também se aproveitar de certos subterfúgios, certas artimanhas, como se pintar e fingir que é um calouro de faculdade para pedir dinheiro (tática subutilizada pelos mendigos, na minha opinião). Caso eu visse o Mendigo Escritor todo pintado, o máximo que poderia imaginar seria que a caneta dele estourou. O mendigo nômade também tem a possibilidade de diversificar os seus pedidos, rumando certos dias a regiões mais ricas – onde pode ganhar esmolas mais polpudas – ou regiões mais pobres – nas quais pode contar sempre com a solidariedade das famílias humildes brasileiras, e ganhar um honesto prato de feijão com farinha. Enfim, o leque de liberdades é significativamente superior. No entanto há sempre temeridades, como a competição com outros mendigos, os riscos de invadir um território já dominado por um mendigo sedentário (a cooperação entre mendigos é não mais do que uma lenda urbana) ou o simples fato da zona escolhida para aquele dia ou semana se mostrar pouco receptiva a indigentes.
Se tomarmos a história da civilização, há uma óbvia tendência que vai do nomadismo para o sedentarismo. Mas se mesmo com o processo civilizador os mendigos continuam mendigos, sugiro que tentem exatamente o contrário de tudo o que foi feito até então.
Escrito por Bernardo de Miranda Henriques
Escrito por ticous
Escrito por Bernardo de Miranda Henriques 